12 de out. de 2015

CRIANÇA DIZ... nova coletânea!

1- Dia chuvoso, "recreio" dentro da sala de aula. As crianças brincam, lancham e conversam. Num cantinho da sala um grupo de meninos e meninas brincam de "verdade ou consequência" com uma garrafinha d'água.

De repente um dos meninos chega até mim, me dá um beijo e me diz: "professora eu te adoro." Eu me admiro um pouco, pois não é do estilo DESSE menino dizer isso. Mas logo percebo que essa declaração faz parte de uma possível "consequência" do jogo.

Aí eu vou até o cantinho de jogo deles e pergunto qual deles decidiu essa consequência. Uma menina sorrindo diz que foi ela. Eu sorrio e, quando já estou me retirando, um outro menino se levanta e me abraça apertado dizendo: "professora eu te amo! E ninguém me mandou!"


2- Esses dias teve cineminha na sala de aula. E no escurinho da sala de aula algumas crianças olhavam atentas ao filme, outras beliscavam guloseimas e cochichavam baixinho e outras...

Bem, outras reclamavam da colega: "Professora, a 'Fulana' está jogando bichinho de pelúcia em mim!"
Meu deus.... quanta agressividade! Jogar bichinho de pelúcia!!!!


3- E durante as apresentações no parque Eduardo Gomes, uma de minhas alunas, muito 'especial', aponta pra uma caixa e me fala: "Aquele boneco ali é meu amigo, eu conheço ele!"
Eu olho, olho e só vejo uma caixa . Penso: Ué, boneco? Eu só vejo uma caixa verde.
Mais tarde percebi que o tal boneco referido por minha aluna estava, na verdade, DENTRO da caixa... assim como o carneiro do Pequeno Príncipe!


4- Momentos MACHISTAS do nosso passeio a um parque de Canoas, com as crianças:
Duas mulheres de prenda, apresentavam o boneco Chico (faziam sua voz e seus movimentos). Aí, num determinado momento, quando falavam sobre a 'Chula' afirmaram duas vezes: "Essa dança mulher não pode dançar... mulher não pode dançar."

Como assim: "Não PODE dançar?" Nunca vi mulher dançando, é uma dança típica masculina até mesmo pela origem, mas... não pode??? Ora, pode sim!!!


Mais adiante, quando um rapaz se apresentou dançando chula, chamaram os meninos, só os meninos pra interagirem e irem brincar de dançar a chula também... enquanto que as meninas só olhavam e torciam. 

E mais adiante ainda comentou: "Dançarino de chula não pode ter barriga." Gordo/Gordinho não pode dançar??? Repito: Pode sim!!!

Mesmo com esses momentos machistas, com o tempo chuvoso e lamacento e 'otras cositas mas'... todos se divertiram muito! 


5- Uma aluna puxa conversa comigo via whatsapp. Aí, depois de um tempo de bate-papo e troca de figurinhas, ela escreve: 'Eu acho tão "engrassado" professora e aluna conversando no Whatsapp!'
Tempos modernos!



29 de ago. de 2015

SIMULAÇÃO DE CAMPANHA POLÍTICA - 4º ANO

Aí ontem, durante a aula sobre direitos e deveres constitucionais e a cidade de Canoas com o 4º ano, resolvemos fazer uma simulação de campanha política. Pra isso foram formados dois "partidos políticos", cada qual com sua plataforma e seu discurso de campanha e o povo, formado pelo restante dos alunos. Houve também votos com cédulas de papel e uma urna feita com caixa de sorvete. Ah, e teve até campanha de boca de urna... ilegal!

O mais bacana de tudo foi o debate entre os representantes políticos e o povo. Estava tão divertido, inteligente e criativo que eles não queriam que terminasse nunca. Algumas das falas:

A promessa: "Eu prometo aumentar os salários e diminuir os impostos..."
A réplica do povo: "Eu só vejo vocês falando que vão aumentar salários, fazer isso e aquilo... mas com que verba se vão diminuir os impostos?"
Resposta do político: "Ah, mas nós vamos contar com a ajuda do povo..."
Tréplica do povo: "De que jeito se vão diminuir os impostos? Ou vão aumentar? Se decidam."

Outras perguntas do povo: "O que vocês pretendem fazer com os moradores de rua?" "Vocês não vão fazer igual ao Sartori e parcelar os salários, né?" "E como nós vamos saber que vocês vão cumprir com o que prometem? Os políticos sempre prometem mas não cumprem..."
e respostas dos políticos: "Nem todos os políticos são iguais" (referindo à sua integridade); "vamos dar direitos a todos igualmente"; "...e construir abrigos pros moradores de rua..."


E ao final, votação e contagem de votos com representantes de cada partido fiscalizando. Houve votos válidos e um branco (meu, pra dar mais emoção!) e a comemoração do partido vencedor. 

30 de mai. de 2015

ORALIDADE, REFLEXÃO E EXPRESSÃO

Muito importante discutir sobre todos os temas com as crianças e mais importante ainda é deixá-las falar, se expressar, pois a oralidade é essencial ao desenvolvimento delas. 
Num jogo de perguntas do tipo filosófica, algumas respostas, de meus alunos do 4º ano,  bem  interessantes:

A PERGUNTA: Se nós aprendemos com nossos erros, por que temos medo de errar?
E após alguns "Pois é... Não sei... É mesmo..." 

AS RESPOSTAS: "É por causa dos outros...Pelo o que os outros vão pensar... Vergonha que vejam que a gente não sabe... É a pressão dos outros... É pressão psicológica.

A PERGUNTA: Se você crê em Deus, o que sentiria se descobrisse que Deus é mulher?

A RESPOSTA de uma menina: Ah, eu ia adorar se Deus fosse mulher porque daí eu ia convidar ela pra passear no shopping comigo!

A RESPOSTA de um menino: Eu ia me sentir enganado. Toda a vida dizendo que Deus era homem e aí vai ver é mulher. 


Em outro dia, o assunto era indústria, comércio e a cidade de Canoas. Aí alguém comenta que o comércio, para vender, antes precisa comprar. 

Nisso uma outra criança comenta o preço da batatinha frita e diz que além de caro o produto é de má qualidade, pura gordura. 

Um outro fala que isso é errado, é roubo. Eu entro e falo dos impostos que também são altos. 

Uma menina diz que as pessoas fazem greve pra mudar e nada muda. Eu concordo com ela mas digo que precisamos lutar sempre. 

Um menino fala que a culpa é da Dilma, enquanto outro menino diz que "é um saco" essa gente que votou na Dilma e que agora não quer mais...

De economia à política, um pulo!

            

22 de nov. de 2014

PARA A MAIORIA ...
... dos religiosos é NATURAL e ÓBVIO que sua fé seja respeitada, mas é encarada como BOA VONTADE a sua tolerância ou respeito à não fé ou religião alheia.

... dos homens é NATURAL e ÓBVIO que mulheres devam cuidar da casa e dos filhos, mas é encarada como BOA VONTADE quando eles cuidam dos seus filhos ou arrumam a sua casa.

... das pessoas brancas é NATURAL e ÓBVIA que as artes devam mostrar cenas do cotidiano de pessoas brancas, mas encaram como BOA VONTADE quando um negro é destacado.

... dos Cisgêneros é NATURAL e ÓBVIO que sua identidade seja respeitada mas é encarada como BOA VONTADE quando toleram ou respeitam a identidade das pessoas Trans*.

... dos héteros é NATURAL e ÓBVIO que namorados andem de mãos dadas em público e sejam respeitados, mas encaram como BOA VONTADE a sua tolerância ou respeito quando casais não héteros fazem o mesmo.


Até para os 'homens de boa vontade' é difícil colocar-se no lugar do outro. Eu busco essa meta diariamente.

20 de set. de 2014

CRIANÇA DIZ CADA UMA! As dez mais (2)

Enquanto a turma saía e se dirigia ao refeitório, um deles se para ao meu lado e diz: "estou te esperando para irmos juntos. Sou teu guardião, lembras?" - Bem no início do ano ele havia me 'comunicado' que seria meu guardião).
E enquanto caminhávamos ele me estende a mão e me diz: "pode segurar a minha mão, se quiser!" E lá fomos nós de mãos dadas...

Interessante como os meninos estão demonstrando interesse por moda, atualmente. De cada dez comentários referentes à minha roupa, cabelo ou coisas do gênero, oito são de meninos.
Hoje mesmo um dos meus alunos se aproximou de mim e comentou que meu tênis marrom parecia masculino. Eu expliquei que ele era unissex, mas ele não se convenceu, pensou um pouco, me analisou e disse: "Eu penso, professora, que com essa tua calça (bege com flores rosas) aquele teu tênis rosa ficaria melhor".
Esses meninos... mas ele tem razão!

Enquanto eu passo um exercício no quadro, um aluno comenta com ar divertido: "Que viagem o tamanho do pé da professora!" (Eu calço 34).

Um aluno chega em mim e me faz um chamego. Eu retribuo com um carinho no rosto, ao que outro aluno, daqueles bem danados, reclama: "Ah, nele tu faz carinho, né..."
E toda a turma começa a cantar:  ciumento, para de ser tão ciumento...  Aí eu, brincando e falando sério ao mesmo tempo, o chamo e faço um carinho nele também. Ele sorri entre satisfeito e sem graça e diz: "agora sim, está bom."
Situação, de certa forma descontraída, mas que ao mesmo tempo faz pensar...

Um aluno chega até mim e fala bem rapidinho: "Professora, tenho duas coisas pra te dizer: uma é que o teu cabelo está bonito assim (crespo) e a outra é te perguntar como se divide com dois números". 

Em minha sala de aula há duas cestas de lixo. E eu não sei por que meus alunos insistem em pensar que são cestas de basquete..

Numa atividade em que as crianças deviam adaptar os tradicionais contos de fadas aos tempos atuais, surgem algumas ideias bem divertidas:
"... E enquanto a fada madrinha enfeitava Cinderela, ela ia tirando Selfies de suas novas roupas e calçados."
"... e o porco mais esperto vendeu seu Ipad, seu Iphone, seu Notebook... para comprar tijolos e construir a sua casa."

Eu estava muito cansada e resolvi não fazer 'chapinha' nos cabelos e nem ajeitá-los.  Acordei com ele todo estranho parecendo descabelado. Fui assim mesmo trabalhar. Azar!
Mas aí eu chego na escola e um aluno, com um sorriso até as orelhas e todo animado, me diz: "Professora, como o teu cabelo está bonito!!!"

Hoje, um aluno do 5º ano, me deu um beijo, fez um carinho em meu ombro e me disse: "Professora, eu tenho amor por ti. Assim...amor de professor e aluno, sabe?"

Uma de minhas alunas é convidada por seus colegas a brincar come eles. E ela, abraçada em mim, responde: "Não, quero ficar aqui escutando o coração da professora."
















19 de ago. de 2014

CRIANÇAS muito ESPECIAIS

As crianças, principalmente as ESPECIAIS, podem muito mais do que imaginamos.

Estávamos, meus alunos do 5º ano e eu, brincando de mímica, quando foi a vez de uma de minhas alunas - com paralisia cerebral - participar. Ela sorteou a frase: "Andar e correr" e tinha que representá-la através da mímica.

Enquanto eu pensava o que EU poderia fazer para ajudá-la na tarefa, ELA, sem quase nem pensar, mexe seus pés lentamente e depois rapidamente, sentada em sua cadeira de rodas. E toda a turma grita: "Andar e correr!"

Fiquei agradavelmente surpresa. Mais uma lição para mim!







30 de jul. de 2014

ASSUME!!!

Eu não aguento essa gente que tem preguiça de educar os SEUS filhos e acha que a obrigação disso é da escola, da sociedade e até da mídia. Como se o dever de educar o SEU filho, fosse dos outros...

Quem tem que orientar, dar limites, ensinar o que é certo, segundo os seus princípios, são os pais, os responsáveis.

Não gosta que teu filho veja determinadas cenas na TV? Orienta, conversa, desliga ou troca de canal... proíbe se achar que deve. Dê limites. 
Não gosta das atitudes da coleguinha da escola do teu filho? Novamente: conversa, orienta, expõe o teu ponto de vista... A chave é essa: orientar, dar limites, educar.

Muito cômodo por a culpa nos outros ou querer que os OUTROS mudem suas atitudes em função do TEU modo de pensar.
Assume o teu filho!

21 de mai. de 2014

LAÇOS DE "FAMÍLIA"

Há muitos anos conheci um homem que tinha dois filhos: uma menina de 16 anos e um menino de oito. A mãe dessas crianças havia morrido em um acidente de carro quando Júnior, o filho mais novo, ainda era um bebê. Dois anos após a morte da sua esposa, ele casou-se novamente, separando-se dois anos depois ao descobrir que seus filhos, principalmente a Cristina que, à época estava com 12 anos, era constantemente maltratada: tanto física como psicologicamente pela madrasta.
Então, após três anos do ocorrido, eu o conheci. E também os seus filhos. Rodrigo era um homem bonito, educado e muito gentil além de parecer um pai muito dedicado. Começamos a sair, a namorar e em pouco tempo estávamos passando os finais de semana e férias de final de ano juntos. Mas o foco desse meu escrito não é Rodrigo, mas sim a relação entre a sua filha adolescente e eu.
Júnior quando me conheceu foi amor à primeira vista. Logo que me via corria a me abraçar e contar as novidades da sua escola, dos seus amigos ou alguma aventura sua. Algumas vezes gostava de fazer de conta que eu era a sua mãe.
Com Cristina foi justamente o oposto: Virava a cara pra mim, discordava de tudo o que eu falava e constantemente me agredia verbalmente e ao seu pai, quando estávamos juntos. Talvez por eu conhecer tudo o que ela já tinha passado, só conseguia sentir carinho por essa menina. E tentei muitas vezes o diálogo, um olhar afetuoso... mas nada.
O ápice desse nosso relacionamento ‘madrasta-enteada’ deu-se durante um passeio de fim-de-semana na praia de Tramandaí: Eu tinha visto um vestido indiano de cor azul e me apaixonado por ele. Rodrigo não pensou duas vezes em comprá-lo para mim. Ao chegarmos ao hotel, Cristina foi até o meu armário e, com uma tesoura, o rasgou todo.
Quando entramos no quarto e vimos meu vestido totalmente rasgado e jogado no chão, Rodrigo gritou ferozmente pelo nome da filha, que estava no quarto ao lado. Como ela não apareceu, Rodrigo foi até o quarto dela e a trouxe na marra. Já em nosso quarto Rodrigo, muito alterado e apontando pro vestido rasgado, perguntou o que ela tinha a dizer sobre isso. Ela afirmou que rasgou o vestido, sim e que não estava nada arrependida porque sabia que eu só queria era roubar a família dela, me fazendo de boazinha.
Enquanto eles brigavam, eu olhava tudo atônita, sentindo por Cristina uma mistura de raiva pelo vestido rasgado e uma espécie de compaixão por tudo o que ela estava sentindo.
Num determinado momento dessa discussão entre eles, Rodrigo dá um tapa no rosto da sua filha. Ela em prantos responde que a culpa é toda minha e, se dirigindo ao seu pai, diz que se ele quiser que fique comigo, pois ela vai embora. Ele responde que ela vá, então. Ela, chorando e visivelmente magoada sai do quarto. Eu, sem conseguir dar uma palavra e me sentindo culpada e triste por provocar sentimentos tão negativos em alguém.
No dia seguinte, durante o café da manhã, nenhuma palavra. Até mesmo Junior que adorava um papo à mesa ficou calado. E como o dia estava chuvoso, permanecemos no hotel. Júnior foi brincar com um grupo de amigos na sala de jogos, Rodrigo decidiu que iria nadar na piscina do hotel e Cristina foi pro seu quarto. Pensei um pouco e decidi que precisava conversar com Cristina, que precisa ao menos tentar colocar os pingos nos ‘is’.
A porta do quarto estava entreaberta e a encontrei chorando. Pedi licença e disse que precisava conversar. Ela apenas me olhou. Comecei falando do meu desejo de formar uma família, de como seu pai sempre falou com carinho dos seus filhos para mim e de como isso me encantou nele. Falei que conhecia um pouco da sua história e sentia, sinceramente por isso...
De repente, enquanto eu falava com ela, minha voz falhou e eu comecei a chorar. Nesse exato momento eu vi no olhar de Cristina algo parecido com ternura. Ela se aproximou de mim e, envergonhada, me pediu desculpas. Eu apenas abri meus braços enquanto a olhava. Ela me abraçou e novamente se desculpou. Tempos depois ela me confessou o que eu já havia percebido: Ela disse que sentia algo parecido como um medo de gostar de mim e ser magoada como aconteceu anteriormente com a ex-mulher do seu pai. A partir desse episódio nossa relação tumultuada se transformou completamente e nós nos tornamos grandes amigas e confidentes.

Meses depois Rodrigo e eu terminamos nosso namoro por motivos que não vem ao caso nesse momento, mas que daria uma nova e boa história. Porém, Cristina e eu continuamos muito apegadas e nos falando quase diariamente, até hoje. 

19 de mai. de 2014

A LUTA CONTINUA

Dia de combate à homofobia, dia da visibilidade Trans, dia da consciência negra, dia da mulher... São dias dedicados às minorias e às suas lutas por igualdade de direitos, respeito e oportunidades.

Por que não existe o ‘dia do homem’? Ou o ‘dia de combate à heterofobia’? Ou ainda o ‘dia da consciência branca’? Simplesmente porque HOMENS BRANCOS e HÉTEROS não sofrem discriminação apenas por serem HOMENS, BRANCOS E HÉTEROS!

Então, há uma enorme diferença ideológica entre vestir uma camiseta escrita ‘100% negro’ e outra escrita ‘100% branco’, por exemplo. A primeira está dizendo que apesar da discriminação e das dificuldades sofridas em função dela, tem orgulho em ser quem é. A segunda representa uma pessoa infantil e que, tal qual uma criança mimada, pensa: “ah se ele pode, eu também posso.”

Se na Constituição brasileira a lei é igual para todos, na prática isso não acontece: mulheres recebendo menos que seus colegas homens, sendo vítimas constantes de agressões físicas e psicológicas; homossexuais e transexuais sendo mortos apenas por demonstrarem afeto em público da mesma forma que fazem, diariamente, os heterossexuais cisgêneros. Pessoas negras sendo alvo de deboches disfarçados de brincadeiras, tendo empregos negados somente em função da sua raça e vendo sua representatividade na mídia, quase nula.

Por tudo isso é que, assim como tem um dia dedicado a lembrar e reforçar cada uma dessas lutas, existem “leis específicas” que ajudam a proteger e garantir esses direitos. E que venham mais quantas leis forem necessárias para ajudar a garantir a dignidade de TODAS as pessoas!

12 de mai. de 2014

VIVENDO E APRENDENDO A VIVER

             Interessante como o modo que percebemos o mundo e as pessoas à nossa volta é modificado ou aprimorado conforme nossas vivências. Principalmente se essas vivências forem sofridas para nós. Recentemente tive, e ainda estou tendo, a experiência de depender das pessoas para me locomover, tomar banho, preparar um café... coisas simples do meu dia-a-dia que eu fazia quase sem perceber.

            Procuro sempre me colocar no lugar do outro e respeitar suas reivindicações mesmo que eu não as entenda perfeitamente. Mas nada se compara a viver, um tantinho que seja, a experiência que outros vivenciam diariamente.

            Vivi a experiência de pensar em seguir numa direção e a pessoa que guiava minha cadeira de rodas ir para a outra. Também a experiência de receber muito mais atenção, ajuda e palavras doces de pessoas que nunca me viram antes, mas também de pessoas que fingiam não me ver para não precisar ajudar ou ceder espaço. Percebi que a maioria das pessoas sente-se feliz e realizada em ajudar, e que a melhor forma de agradecer é saber aceitar essa ajuda com humildade.

            A locomoção, mesmo em locais apropriados, é bem deficiente: Caixas 24 horas, de diversos bancos, não possuem balcão numa altura apropriada para cadeirantes ou anões, por exemplo, e entre as caixas de um supermercado, várias não tem largura suficiente para a saída de uma cadeira de rodas. Fico imaginando as experiências que eu NÃO tive, como: pegar um ônibus, andar pelas calçadas da cidade, entrar em locais onde ainda não existem rampas, etc.

            Por isso, mesmo que pareça absurda a reivindicação ou queixa de outra pessoa, procure colocar-se no lugar dela. Se mesmo assim não for possível compreender, apenas respeita e acata. Só quem sofre é que sabe, realmente. Os demais apenas supõem.

(Da série:"Aconteceu ou poderia ter acontecido")

10 de mai. de 2014

AFETO PENDENTE


          Na época em que eu comecei a lecionar, logo após o meu estágio, eu fui intolerante e não tive paciência com uma de minhas alunas, que na época estava com uns 13 anos.  Mas essa menina não foi a única vítima: eu também fui vítima de mim mesma, pois os anos foram passando, mas a culpa de não ter sido compreensiva ou dada a devida atenção a essa adolescente continuou me acompanhando.
            Mas o fato interessante e que, de certa forma deu fim ou aliviou essa minha culpa, aconteceu há poucos dias quando eu fui dar uma palestra sobre educação. Por incrível coincidência essa adolescente, que agora é uma mulher, estava lá na platéia me ouvindo. E me reconheceu.
            Ela veio falar comigo se mostrando feliz em me ver. Falou comigo com muito carinho e admiração. Eu a reconheci imediatamente, também. E recebi esse carinho dela como uma mistura de ternura, alívio e a sensação de que eu não era merecedora disso.
            Como já estava próximo do almoço eu a convidei para almoçarmos juntas num restaurante perto dali. Ela aceitou e parecia fascinada com tudo o que estava acontecendo. Quase ao final de nosso almoço ela olhou pra mim e disse que queria me fazer uma pergunta sobre a época em que ela havia sido minha aluna. E com os olhos levemente umedecidos questionou: “professora, eu sei que eu sempre fui meio abusada, meio respondona, mas no fundo o que eu queria era ser também admirada por ti. Tu sempre foste meio dura comigo, mas parecia que se importava mesmo assim. Eu sempre fiquei com isso na cabeça, pensando se eu era amada ou tolerada...” Nessa hora seus olhos se enchem de lágrimas e os meus também.
            O que seguiu foi um afetuoso abraço entre nós e meus pedidos de desculpas a ela, confessando que a culpa por isso também não saía da minha cabeça. Nesse momento todo o amor, toda a admiração e carinho que estavam pendentes entre nós veio à tona.
            Eu fui tão admirada por essa aluna e não soube perceber. Mas em meu inconsciente eu devia saber disso sim, visto a culpa que carregava. Hoje somos grandes amigas e nos falamos regularmente.
            Muito bom viver um final (ou começo) feliz!

(Da série: "aconteceu ou poderia ter acontecido")


6 de abr. de 2014

Estereótipos de gênero

Hoje entreguei folhas coloridas aos meus alunos para um trabalho de artes. Peguei duas pilhas delas e, antes de entregá-las, perguntei a cada um qual delas eles preferiam: a AZUL ou a ROSA.

Para a minha agradável surpresa várias meninas preferiram a folha azul enquanto que vários meninos pediram a rosa. Todos com a maior naturalidade (como sempre deveria ser, afinal).

Lembrando que quando eu iniciei no magistério - e mesmo há alguns anos - se um menino se "atrevesse" a escolher uma folha rosa seria, certamente, ridicularizado pela maioria dos seus colegas.

Que bom que, aos poucos, os estereótipos de gênero estão desaparecendo!

1 de abr. de 2014

PROFESSORA ATEIA, ALUNOS CRENTES


Olha que interessante: crianças católicas, umbandistas, evangélicas...tendo aulas de RELIGIÃO com uma professora ateia!

Mas como a essência do caráter é baseada no amor, na tolerância, no respeito...e isso independe da fé, as conclusões a que ESSAS crianças chegaram, com a orientação DESSA professora, foram ótimas.

Algumas dessas conclusões:
"Esse negócio de ter preconceito com os diferentes de nós está muito errado, afinal Deus fez as pessoas diferentes umas das outras!"

"Todos devem ter os mesmos direitos:negros, brancos, índios, homens, mulheres, pobres, ricos, gente com religião e sem religião. Mas na prática isso não acontece porque algumas pessoas se acham melhores do que as outras."

"As pessoas precisam ser mais gentis umas com as outras, ajudar quando precisam, saber ouvir, entender...gostamos quando são gentis com a gente!"



14 de dez. de 2013

Da série: Criança diz cada uma... as 10 mais!




1. Travestis e respeito
Hoje um dos meus alunos, de seus 9 anos, troxe o assunto "travesti" para a sala de aula. Aproveitei que o tema partiu deles para falar que as pessoas são diferentes umas das outras, que isso faz parte da vida, falar do respeito ao próximo... Quando outro de meus alunos (chamdo de 'florzinha' por algumas pessoas da própria escola) comenta com um sorriso: "Ah, se todos pensassem como tu, professora, o mundo seria bem melhor". E quando eu falo que o correto é ter respeito e que errado é quem discrimina, ele responde com a mesma calma de antes: "Mas não respeitam, professora. Não respeitam."

2. Protestos
Amanhã, '7 de setembro', as professoras trabalhando essa data com as crianças...inclusive eu, que já estava com minha aula planejada.
Porém, pouco antes de entrar em sala, vejo uma mini reportagem no jornal de Canoas, falando sobre os protestos que acontecerão em várias cidades do Brasil, nesse dia 7. 
As coisas mudam: após dar uma pincelada sobre a independência do Brasil, entrego um jornal a cada criança. Todas lêem e eu pergunto o que elas acham que está ruim no Brasil e que mereceria um protesto.
Algumas respotas:
"Eu acho que os médicos cubanos tinham que fazer o teste pra médico e a Dilma devia dar o pagamento direto pra eles e não pro governo de outro país."
"Eu acho que devia existir leis para crimes contra gays, negros e índios."
"Protestar contra os lixos jogados nas ruas e a construção de mais lixeiras e encanamentos."
"Proibir discriminação contra pobres, 'nerds', as virgens... Todos são iguais."
"Arrumar as estradas que estão muito ruins e cheias de buracos." 
... 
E são crianças de 9 anos em média!
Adoro essas crianças!!!

3. Consciência Negra
Mês de novembro e os trabalhos com as crianças sobre o significado do dia da Consciência Negra, as lutas e conquistas do passado e também as atuais, os heróis e personalidades de origem africana... são intensificados (pois precisam ser trabalhados o ano todo!).

Então hoje, quando falávamos sobre algumas dessas personalidades brasileiras, um de meus alunos falou cheio de orgulho: "Eu sou negro, né professora!" E outro com o mesmo brilho no olhar: "Eu também!"

'Consciência Negra' acontecendo!


4. Formas de tratamento
Um aluno me pergunta:
"Professora, a senhora vai dar os jogos agora?"
E outro aluno, rindo e muito admirado retruca:
"Bah, cara, a professora não é tão velha assim pra chamar de SENHORA!"

5. Receptividade
Hoje, lá na escola, precisei substituir uma professora e fiquei com a turma dela. Um 5º ano. E dá sempre um pouco de ansiedade quando não se conhece a turma.

Porém, assim que eu entro na sala escuto de alguns prés-adolescentes, que falam animadamente: "Ah, então tu que és a professora Rejane! Nós já te conhecemos de nome" e outro: "Falam tanto em ti: professora Rejane pra cá, professora Rejane pra lá..." Enquanto outras meninas me olhavam com um sorriso, um quase encantamento.

E foi assim toda a manhã: Todos educadíssimos, simpáticos e obedientes. Quase inacreditável. Não precisa nem dizer que acabei apaixonada pela turma... quase desejando que ele fosse minha.

E claro, registrei no diário dessa professora meu elogio à turma e a ela também.


6. Argumentos
Hoje perguntei aos meus alunos do 3º ano se eles sabiam o que significava a palavra "argumento". E após dar exemplos de argumentos bons e argumentos fracos, sugeri a eles o 'jogo do tribunal" onde um acusa e outro defende um determinado tema. Depois inverte e quem defendeu passa a acusar.

Bom, pra ser democrática perguntei quais temas eles gostariam de debater. As sugestões deles - crianças de seus 8 anos! - "Lei Maria da Penha". "Pichação" e "Racismo'. 

Depois, cada dupla que veio à frente deu um show de argumentação. Sinceramente não imaginava que fossem tão bons nisso... e mais uma vez eles me surpreenderam. Triplamente: pelas escolhas dos temas, pela capacidade argumentativa e pelo desembaraço.


7. Curiosidade
Hoje uma aluna minha me perguntou: "Professora, como é o nome daquilo que a mulher faz antes de ter nenê?"
Eu logo pensei: "Meu deus, o que essa criança está querendo saber?!"

Mas a resposta veio rápida por parte de um outro aluno meu: "È chá de fralda!"
E a dúvida da menina era EXATAMENTE essa.
Mente poluída essa minha...


8. Relações
Ah, essas crianças...
Pedi aos alunos que dessem exemplos de substantivos compostos. Aí um deles me disse: "armário e Batman"... Ele queria dizer "guarda-roupa e Super-Homem!

9. Abraço
Nós estávamos, meus alunos e eu, conversando sobre o poder do abraço, do bem que fazia pra alma e pro corpo... até que um dos meninos (daqueles bem brigões e metidos a machinho) dá o seu depoimento: "Sabe, eu estava brigando com o Cristiano e ele me deu um chute. Aí eu comecei a chorar, ele me deu um abraço e a dor diminuiu."





10. É um jogo!
Conversa que tive com uma aluna do 3º ano:
- Professora, quando tu vais dar aquele jogo verde e preto de novo?
- Jogo verde e preto???
- É, professora, aquele que tem umas palavras azuis...
- Jogo verde e preto com palavras azuis? Não estou lembrada.
- É um jogo que é um livro: tem as palavras azuis de um lado e do outro diz o que é...
- Ah, tu estás falando do dicionário!
- Isso, professora: DICIONÁRIO!
(O dicionário tem capa verde e preta e as palavras são em azul com o significado em preto)
Um jogo, claro!!!




21 de jul. de 2012

MARIO QUINTANA


Seleção de Poemas e Frases


DOS MILAGRES

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!

DA DISCRIÇÃO

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

A GRANDE SURPRESA

Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...

POEMINHA DO CONTRA

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Frases:
* A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.
* Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer.
* O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.
* O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.                                                                                                                                                   

Mario Quintana, o "poeta das coisas simples", como era conhecido, nasceu na cidade de Alegrete no RS, em 30 de julho de 1906. 






Algumas de suas Obras: 1940 - A Rua dos Cataventos;1945 – Canções; 1947 – Sapato Florido;1948 – Poemas em Prosa; Espelho Mágico; 1950 – O Aprendiz de Feiticeiro; 1962 -  Poesias (obras reunidas em um único volume);1968 – Pé de Pilão (infantil);1976 – Apontamentos de História Sobrenatural; 1982 – Nova Antologia Poética; 1983 – Lili Inventa o Mundo (infantil); 1984 – Batalhão das Letras; 1986 – Baú de Espantos; 1987 – Da Preguiça como Método de Trabalho; 1990 – Velório sem Defunto;1994 – Sapato Furado (infantil);   

                                     

15 de jun. de 2012

Ateus e não ateus


(Agora, com pouco tempo pra escrever, compartilho todos aqueles artigos, fotos...que considero significativo. Esse é muito bom! Vale a pena conferir!)

 

Eu havia escrito que não apoiava os ateus, pois eles estavam aquém de “Deus está morto”, de Nietzsche. E a filosofia segue com Nietzsche. Perguntar pela existência de Deus seria algo sem sentido. Afinal, como crer ou não crer em Deus se a metafísica acabou e seu oponente, o positivismo, se mostrou apenas o outro lado da mesma moeda? Ridículo não ouvir Nietzsche!
Todavia, descobri que estava pensando filosoficamente demais. Rorty diria: “sobrefilosoficação”, no sentido de “over”.
Meu filho Paulo Francisco Martins Ghiraldelli , que faz filosofia, me fez ver que eu estava errado. Foi ele que me lembrou estatísticas, mostrando o quanto não-ateus acreditam em coisas que emperram nossa vida, e que isso é o que faz com que gente como Daniel Dennett (ou Dawkins) e outros grandes filósofos se ponham atualmente como militantes da causa atéia.
Dennett não é ateu por conta de teologia e, sim, por conta de política: ser ateu para vários americanos e ingleses, hoje, é ser contra aquilo a que Deus está ligado nesses países: culto de nacionalismo exacerbado, culto do militarismo (veja que só Obama não tem repetido o “God Bless America” para lá e para cá), a defesa de currículos escolares anticientíficos e a defesa de negação de direitos a minorias, principalmente gays. Foi vendo esse lado político, que a juventude do meu filho me corrigiu. Lembrou ao pai o dever da velha militância libertária!
No Brasil de hoje, não estamos longe dessa calamidade: Deus ficou do lado errado!
Ponho de lado os ateus que pregam ateísmo como quem quer fundar igreja, mas fico com os ateus que entendem que a questão não é a crença em Deus, mas a crença em Deus porque Ele está aliado ao que há de pior na Terra. O ateísmo político se justifica por completo.
Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor e professor da UFRRJ




25 de mai. de 2012

A escola na luta contra a homofobia


Mais uma reportagem da revista Nova Escola que vale a pena divulgar:

Data internacional e Seminário LGBT ressaltam a importância da instituição no combate à discriminação contra os homossexuais

Dados alarmantes sobre discriminação a homossexuais na escola vieram à tona no 9° Seminário Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais realizado na Câmara dos Deputados em 17 de maio de 2012, dia Internacional de Combate a Homofobia. Uma pequena (e triste) amostra: 
Mais de 40% dos homens homossexuais brasileiros já foram agredidos fisicamente durante a vida escolar, diz estudo da Unesco;
Mais de um terço dos 15 mil alunos entrevistados para uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) procuram não chegar perto de homossexuais; 
- 21% acham que estudantes homossexuais não são normais; 
- 26% dizem não aceitar a homossexualidade.

Leia mais Como combater a homofobia 

Também é desanimador constatar que possíveis mudanças a esse cenário estão em compasso de espera. O congelamento da discussão vem desde 2011, com o veto governamental ao material anti-homofobia (apelidado pelos críticos como "kit gay"), que os militantes da área veem como retrocesso.

Isso que não significa, claro, que as escolas estejam de braços cruzados. "Ações para a formação de professores sobre o tema têm sido disseminadas", afirma Cláudia Vianna, professora da Faculdade de Educação Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Gênero e Educação . "Entretanto, os materiais relacionados estão diluídos pelo Brasil e partem de iniciativas de ONGs, que apenas em alguns casos são incentivadas pelo governo". 

É preciso destacar, ainda, que o trabalho não acaba com a simples distribuição de um livro didático ou com a criação de uma disciplina que trate do assunto. Um trabalho eficaz, capaz de diminuir o preconceito à homossexualidade de modo a ultrapassar os muros da escola, deve permear todo o currículo e as situações de gestão de conflitos. O lado positivo é que já percorremos parte dessa trilha: desde a década de 1990, Educação Sexual é tema transversal previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). O lado ruim é que pouco disso saiu do papel. "Na prática, falta atenção à diversidade sexual e à percepção da sexualidade como resultado de um processo de socialização", argumenta Cláudia.

Retomar o caminho trilhado, portanto, é uma primeira providência indispensável ao combate à homofobia nas escolas. Também é preciso uma dose razoável de realismo. Afinal, o fim do problema depende de um longo processo de formação - não apenas dos alunos, mas também dos professores. Vale a reflexão: quantos docentes ainda acham que a homossexualidade é doença? "As mudanças com relação ao tema são lentas, porque envolvem valores sociais e disputa política por qualidade da Educação em diversos aspectos. Mas não podemos desistir delas", completa a especialista.

16 de mar. de 2012

Os 10 erros mais comuns nas festas escolares


Aulas perdidas, desrespeito à diversidade cultural e à liberdade religiosa... Saiba como evitar esses e outros equívocos

Durante o ano, temos 11 feriados nacionais - na média de um a cada cinco semanas -, um monte de datas para lembrar pessoas (Dia das Mães, dos Pais, das Crianças, do Índio) e fatos históricos (Descobrimento do Brasil, Proclamação da República). Sem contar os acontecimentos de importância regional. Nada contra eles. O problema é que muitas vezes a escola usa o precioso tempo das aulas para organizar comemorações relacionadas a essas efemérides. O aluno é levado a executar tarefas que raramente têm relação com o currículo. [...]
A seguir, os dez principais equívocos dos eventos escolares.

1. Usar as datas festivas como base para o currículo
"Planejar o ano letivo seguindo efemérides desfavorece a ampliação de conhecimentos sobre fatos e conceitos", afirma Marília Novaes, psicóloga e uma das coordenadoras do programa Escola que Vale, de São Paulo. Exemplo? Dia do Índio. A lembrança não envolve estudos sobre as questões social, histórica e cultural das nações indígenas brasileiras. Para haver aprendizagem, é preciso muita pesquisa e mais do que um dia festivo [...] Sem contar os tópicos cuja expressividade é questionável (Semana da Primavera) ou controversa, como o Dia dos Pais e o das Mães: "Enfatizar datas comerciais como essas é ignorar as mudanças no perfil da família brasileira, que nem sempre conta com as duas figuras em casa", completa a psicóloga.

2. Desrespeitar a liberdade religiosa
Dos 11 feriados nacionais, cinco têm origem no catolicismo (Páscoa, Corpus Christi, Nossa Senhora Aparecida, Finados e Natal). As escolas que seguem essa religião lembram as datas. O problema é que as escolas públicas também. Segundo a Constituição da República, o Brasil é um Estado laico, ou seja, sem religião oficial. [...] Para Renata Violante, consultora pedagógica do Instituto Sangari, em São Paulo, os educadores não podem dar a entender que uma religião é superior a outra (quais são mesmo as datas importantes para espíritas, judeus, budistas, islâmicos e tantos outros?). Existem espaços próprios para cultos. Definitivamente, a escola não é um deles. As festas juninas são um caso à parte: elas se tornaram uma instituição e perderam o vínculo religioso. O enfoque folclórico, resgatando alguns hábitos e brincadeiras e a culinária do homem do campo, torna as mais democráticas.[...]

3. Confundir o currículo e o tema da festa
A festa não ter relação com o currículo é um problema. Mas outro tão grave quanto é usá-la como pretexto para ensinar. "Já que temos de fazer bandeirinhas para enfeitar barraquinhas, então vamos aproveitar para ensinar geometria", pensam alguns professores bem-intencionados, esquecendo que um ensino eficiente requer planejamento, avaliação inicial e contínua e uma seqüência lógica que leve à construção do conhecimento. [...]

4.  Subaproveitar as aulas de Arte
Não raro, o espaço que seria utilizado para essa disciplina é convertido em oficina de enfeites. Para colocar o aluno em situação de aprendizagem, é papel do professor de Arte propor atividades que favoreçam o percurso criador. [...] Na confecção de bandeirinhas, por exemplo, as crianças são orientadas a seguir um modelo preestabelecido sem dar espaço a suas marcas pessoais nem enfatizá-las. O modelo, que serviria apenas como referência para a elaboração de outras possibilidades, vira matriz para cópias [...] A produção do estudante deve ter um propósito maior do que atender à expectativa do professor. [...]

5.  Estereotipar os personagens
Caipira com dente preto e roupas remendadas em junho, cocares e instrumentos de percussão em meados de abril. Esses estereótipos não correspondem à realidade. Homens e mulheres que moram no interior não se vestem dessa maneira, e os índios brasileiros vivem em contextos bem diferentes. [...]

6. Obrigar todos a participar
"Professora, não quero dançar", diz um. "Tenho vergonha de falar na frente de todo mundo", avisa outro. Quem já não ouviu essas frases dias antes de um evento escolar? Quando a festa nada tem a ver com a aprendizagem, os alunos não são obrigados a participar. Nesses casos, é proibido causar qualquer tipo de constrangimento a eles. [...] "Quem não tem condição de arcar com uma fantasia para os filhos fica envergonhado e não participa. Fala-se tanto em inclusão, mas as festas às vezes excluem."

7. Não ter uma finalidade certa para os recursos arrecadados
Pequenas reformas, mobiliário novo, material pedagógico... Quando a verba que vem da secretaria não dá para comprar tudo, pensa-se em festa para arrecadar fundos. A comunidade é convidada, participa, gasta, e muitas vezes não fica sabendo o destino dos recursos [...] A solução é divulgar o objetivo da iniciativa e prestar contas quando o bem for adquirido...

8. Ter como objetivo principal apenas atrair os pais
Eles não costumam ir às reuniões, não conversam com os professores sobre o avanço dos filhos e mal conhecem a escola. Os diretores pensam: "Quem sabe, para se divertirem, os pais venham até nós". Embora os momentos de confraternização com os familiares sejam importantes, eles não devem ser a única maneira de envolvê-los. Reuniões marcadas com antecedência e planejadas para compartilhar o processo de aprendizagem e a produção intelectual, artística e esportiva das crianças são as iniciativas que exibem os melhores resultados quando o objetivo é atrair e conquistar as famílias.

9. Usar as festas como única maneira de socializar a aprendizagem
Um dos objetivos da escola deve ser exibir a produção intelectual e artística do aluno, principalmente aos pais, nas mais variadas ocasiões. Fazer uma festa é apenas uma possibilidade, por isso não deve ser usada em excesso. [...]

10. Jogar tempo fora
Usar a sala de aula ou o período que deveria ser dedicado a atividades pedagógicas para os preparativos é um desrespeito com as crianças e com o compromisso que a escola tem de ensinar [...] Se a festa não é concebida como maneira de contextualizar os conteúdos aprendidos, ela deve ser organizada sempre em horários alternativos aos das aulas.

Tem de ter festa!
Ninguém é contra festas, desde que elas sejam para recreação pura e simples ou uma maneira de socializar o aprendizado. As do primeiro tipo podem envolver todos e ser muito divertidas, desde que não ocupem o tempo de sala de aula na organização. Já as que são planejadas para finalizar o estudo de determinado conteúdo exigem muito preparo. Quando o evento faz parte do projeto didático, o tema precisa ser previsto no currículo [...]. Antes de bolarem o evento junto com o professor, os alunos certamente serão convidados a pesquisar, levantar hipóteses, realizar diversos tipos de registros e trocar conhecimentos com os colegas. Já que a festa é uma das etapas do processo, fica proibido deixar alguém de fora. Se um aluno não quiser participar por qualquer motivo, cabe ao professor envolvê-lo e ajudá-lo a superar as dificuldades que surgirem, seja em relação a timidez, seja em relação a habilidades de comunicação.